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O livro e a leitura na era digital

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Foto: BPRMadeira
A edição de livros, periódicos ou outros documentos, tem estado profundamente ligada à produção de material impresso. Muito embora não seja previsível o seu desaparecimento, a emergência e o desenvolvimento das Novas Tecnologias de Informação e de Comunicação e, em particular, a passagem para uma sociedade de informação, em que a Internet e a World Wide Web assumem especial importância, tem afectado significativamente o modo de pensar a natureza e funções do do livro tal como tradicionalmente o temos conhecido. Assim, o mundo do livro está a mudar ao mesmo tempo que muda o mundo à nossa volta.

Face a esta situação de instabilidade que caracteriza a transição para a era digital, importa reflectir sobre qual a natureza do livro como forma de comunicação nesse novo mundo; sobre as relações entre autores, leitores e editores e, naturalmente, sobre o modo como viremos a gerir a nossa herança cultural e o nosso passado intelectual; e ainda sobre a reestruturação das economias da autoria e edição.

Muito embora a noção de livro e de edição electrónica esteja longe de se encontrar estabilizada pois, num sentido aberto, pode integrar praticamente todas os documentos produzidas sob uma forma que não tenha o papel como base, é inegável que as novas tecnologias conferem valor acrescentado aos conteúdos  por força de algumas das suas características específicas: a sua enorme capacidade de armazenamento de dados, a rapidez da sua produção e disseminação, a facilidade de actualização e correcção ou potencialidades colaborativas e interactivas.  Assim, se existem oportunidades aliciantes para o sector do livro, existem igualmente riscos potenciais para a edição ou para o leitor e que, nalguns casos, tendem a romper um equilíbrio de poderes sabiamente sedimentado ao longo da história do livro. Uma boa parte deles tem a ver com o facto de as publicações electrónicas exigirem uma mediação tecnológica que é basicamente estranha ao mundo do livro. Com efeito, no mundo digital todos os textos são dados a ler num mesmo suporte e nas mesmas formas, tornando-se cada vez mais difícil diferenciar os diversos géneros ou repertórios textuais, doravante semelhantes na sua aparência e equivalentes na sua autoridade.

Esta situação levanta desafios à própria noção de «livro» tal como ainda o entendemos, ou seja, como um objecto específico, diferente dos outros suportes de escrita e como unidades textuais dotados de uma identidade própria. Por outro lado, se a Internet aparece como uma espécie de utopia realizada, essa maior liberdade conferida ao indivíduo, que nela pode difundir os textos que entender, tem como contrapartida uma grande precariedade institucional. A Internet escapa aos mecanismos e dispositivos tradicionais de institucionalização dos textos e torna-se cada vez difícil garantir a autoridade, e mesmo a autenticidade, do que aparece na Web. Contudo, estas mudanças não derivam de um determinismo do hardware e do software, pelo que teremos muito provavelmente que aceitar que a palavra impressa integra uma «cultura do livro» já em declínio. Na verdade, o destino do livro no nosso mundo globalizante não depende, e não pode ser explicado apenas pelas tecnologias, já que os livros se encontram inevitavelmente ligados às tendências e à sorte das sociedades de que fazem parte".

Por: José Afonso Furtado, diretor da Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian
Síntese da conferência proferida dia 21/04/06 na Biblioteca Pública Regional da Madeira, em comemoração ao "Dia Mundial do Livro"
Publicada em: 24/04/2006

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