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| Foro: R.Alves |
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| Rubem Alves |
Hoje li um texto na Revista Vip, e logo no início me lembrei de ter lido sobre o mesmo assunto na Revista Bons Fluídos, da qual sou assinante.
O primeiro texto intitulado Tênis X Frescobol foi escrito por Rubem Alves e publicado na edição de março da Bons Fluídos, segue abaixo na íntegra:
"Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’ Sherazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo...’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\' não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’ O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro. O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis: ‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\'. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\'. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’ Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...(O retorno e terno, p. 51.)"
O texto publicado na Vip deste mês foi escrito por Tenzin Chopell, intitulado Winbledon? Tô Fora: se você quer destruir uma relação amorosa, pratique tênis; se quer preservá-la, jogue frescobol.
"Olha, Mantraman, na minha opinião existem dois tipos de relacionamento amoroso: um que segue a lógica de um jogo de tênis e outro que segue as regras de um jogo de frescobol. O primeiro é marcado pela competição e a necessidade de triunfar sobre o(a) parceiro(a). O segundo tem como traço determinante a cooperação. Ou seja: quanto mais a bolinha ficar no ar, mais divertida e estimulante se torna a partida...", disse minha acupunturista naquela ensolarada manhã de outono, enquanto tentava recolocar meus nervos à flor da pele em seus devidos lugares. Mas a verdade é que a sábia observação da jovem doutora Helena entrou por meus ouvidos de maneira tão terapêutica que, imediatamente, levantei-me da maca onde ela estudava os motivos de minha crise nervosa e voltei para casa mais leve e levitante que uma pluma à deriva. Já joguei incontáveis partidas de tênis com pessoas que amei. E suponho que muitos leitores desta coluna ainda batam ou já tenham batido suas bolinhas com suas(seus) parceiras(os). Normal. O jogo de tênis, afinal, é um espelho da sociedade em que vivemos. Somos possuídos 24 horas por dia pelo desejo de vencer, de ver nossos egos triunfando sobre os egos alheios, e esse comportamento, como não poderia deixar de ser, acaba moldando e minando nossa mais preciosa e cobiçada forma de relação, que é a amorosa. Parceiro em vez de Oponente: Observe bem como é cruel um jogo de tênis. Toda sua lógica é fundamentada na destruição do outro: jogar a bolinha o mais perto possível da linha divisória, cortá-la com violência de modo que seu adversário não possa nem enxergar por onde ela passou, determinar a conquista de um ponto com apenas um saque. Enfim, é um jogo com inesgotável repertório de golpes que visam, em última instância, aniquilar seu inimigo. É claro que o jogo de tênis em si tem sua beleza, sua arte e seu encanto. Mas convenhamos que transportá-lo das quatro linhas brancas onde é jogado como esporte para as quatro linhas infinitas e imaginárias do amor é, no mínimo, um contra-senso. No entanto, é o que mais encontro por aí: casais praticantes de tênis diurno ou noturno que, quando se separam, continuam jogando-o de maneira ainda mais violenta e cruel. Infelizmente, é o que tenho visto. O leitor que quer uma vida amorosa mais leve e amena deve se esmerar na arte do frescobol. Aqui, tudo é mais divertido. Em vez de ter um oponente, você tem um parceiro. Nunca se é vitorioso ou derrotado. No sublime jogo de frescobol, o único resultado é a vitória de ambos, já que, quanto mais um colaborar com o outro, mais tempo a bolinha ficará suspensa no ar. E, quanto mais tempo a bolinha ficar suspensa no ar, mais cumplicidade e generosidade fluirão. E, quanto mais cumplicidade e generosidade, mais felicidade. E, quanto mais felicidade, mais felicidade. Em outras palavras, amor não tem nada a ver com um campo de batalha. Pelo contrário, sua gênese mais profunda encontra-se na diversão. E, não tenha dúvida, o amor jogado como frescobol é diversão garantida. Portanto, empunhe sua raquete e boa sorte!
Enganos e erros acontecem. Escrevi para o autor deste último texto que teve a atenção de responder-me encaminhando o e-mail enviado ao Rubem Alves (reproduzido abaixo). Considerando que as duas Revistas são da mesma Editora, a Abril e pela velocidade com que a Internet propaga erros e acertos, achei conveniente publicar aqui, para dar os devidos créditos a quem de direito.
Caro Rubem Alves, de repente, por pura obra do acaso, nossos nomes ficaram entrelaçados. Explico : escrevo uma crônica mensal para a revista VIP e a que está atualmente nas bancas nasceu de uma idéia sua, Tênis x Frescobol. O que ocorreu foi o seguinte : o conceito me foi passado de uma forma despretensiosa pela minha acupunturista durante uma sessão de "destrava nervos". Achei a correlação fantástica e, logo que voltei à casa, escrevi sobre o assunto. Mas foi só agora, com a revista nas bancas, que alguns leitores me avisaram que você já tinha escrito sobre o mesmo tema. É claro que pelo fato de eu não ter lido o seu texto, fez do meu algo bastante iferente do seu. O que, convenhamos, é bastante saudável. Por outro lado, acredito que ajudei a divulgar este paralelo tão simples e tão genial que é o tênis e o frescobol como "estilos" de relacionamentos amorosos. Aproveito para apresentar minhas desculpas. Vai anexado a minha versão sobre o assunto. Um abraço, Mantraman.
Postada em:
15/07/2005 16:54
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