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Novembro/2004
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FOMENTO À CRIAÇÃO LITERÁRIA
Uma comissão de escritores, representando o Movimento Literatura Urgente, entregou o Manifesto Temos Fome de Literatura ao Ministro Da Cultura Gilberto Gil e ao Coordenador Nacional do Livro Galeno Amorim, em reunião com o setor em São Paulo. Assinado por mais de 180 nomes bastante representativos da literatura brasileira contemporânea, o documento reivindica a inclusão de POLÍTICAS DE FOMENTO À CRIAÇÃO LITERÁRIA no Plano Nacional do Livro, e apresenta dez propostas de programas públicos para a literatura.
Leia abaixo a íntegra do documento: TEMOS FOME DE LITERATURA
Exmo Sr. Gilberto Gil Ministro da Cultura do Brasil Exmo Sr. Galeno Amorim Coordenador do Programa Nacional do Livro, Leitura e Bibliotecas Temos acompanhado com interesse, entusiasmo e atenção as iniciativas do Ministério da Cultura para a criação de uma Política Nacional voltada para o Livro, a Leitura e as Bibliotecas. As discussões públicas sobre o assunto e a abertura da equipe ministerial para ouvir a sociedade civil são realmente louváveis e estimulantes para os que participam da cadeia produtiva da literatura e do livro e para todos os interessados. Sobretudo em um país em que se lê pouco — muito embora tenha uma produção literária de altíssima qualidade —, esses esforços se fazem necessários e urgentes. Como escritores, poetas e ensaístas, manifestamos nosso desejo e nosso interesse de contribuir nesse processo de discussão para o estabelecimento de políticas públicas o mais abrangente possível, que inclua todos os segmentos da cadeia produtiva da literatura e do livro.
No ABC da Literatura, entusiasmada e brilhante defesa da criação artística, poética e literária, o poeta Ezra Pound afirma: "Uma Nação que negligencia as percepções de seus artistas entra em declínio. Depois de um certo tempo ela cessa de agir e apenas sobrevive." Não é preciso gastar tinta para evidenciar o papel fundamental da criação literária e poética no grande caldo vivo e orgânico que forma a arte e a cultura de um país. Também não é difícil perceber que, quando as condições para a criação e a circulação da arte e da cultura sofrem um processo de estrangulamento, logo se nota um empobrecimento das relações humanas. Daí para o desencanto, a paralisia e, em grau mais acentuado, a barbárie, são apenas alguns passos. Largos, por sinal. Escritores e poetas são, como todos sabem, os artífices principais da criação literária. Sem eles, não existem os livros, nem a indústria editorial, nem as bibliotecas, nem os leitores. Paradoxalmente, são também o segmento menos profissionalizado do setor. Profissionalizado, não no sentido da excelência de sua arte, mas na possibilidade de sobrevivência através de seu próprio trabalho criativo. Como também é do conhecimento de todos, muitos criadores literários, além de não contarem com nenhum, ou quase nenhum incentivo público, ainda assumem as despesas de edição de suas obras com recursos próprios, ou, como dizia o compositor Itamar Assumpção: Às Próprias Custas S/A. É, portanto, um segmento carente de políticas públicas que fomentem, incentivem e criem condições objetivas para o desenvolvimento de seu trabalho criativo. Em que pese todo o esforço do Ministério da Cultura em desenvolver políticas públicas para o setor ligado ao livro, temos percebido, com preocupação e desapontamento, a não inclusão, com maior ênfase e clareza, da criação literária nessas políticas. Notamos que a palavra Literatura jamais está incluída nas políticas para o livro, a leitura e as bibliotecas. Não se trata de uma simples questão semântica ou de nomenclatura. Trata-se, sim, da necessidade de Políticas Públicas de Fomento à Criação Literária. Trata-se, sim, do entendimento profundo de que, da mesma forma que o Brasil tem fome de livros, os escritores têm fome de políticas públicas para a literatura. Sem essa consciência, as políticas nacionais, estaduais ou municipais serão necessariamente incompletas.
Tendo em vista essas condições e o esforço da equipe ministerial em pensar e implementar medidas de desenvolvimento para o setor, decidimos tornar públicas, e trazer aos representantes do Ministério da Cultura, as seguintes reivindicações: 1) Inclusão do termo LITERATURA nos programas, leis, conselhos e câmaras setoriais relacionados ao livro, leitura e bibliotecas, que estão sendo propostos pelo Ministério da Cultura. Desta forma, teríamos o Programa Nacional da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas, a Lei da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas, o Conselho Nacional da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas e a Câmara Setorial da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas;
2) Inclusão de artigo na Lei da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas criando o Fundo Nacional da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas, com 30% das verbas destinadas diretamente ao Fomento à Criação e Circulação Literária e os outros 70% ao fomento à Leitura e Bibliotecas; 3) Inclusão do termo FOMENTO À CRIAÇÃO LITERÁRIA no § 2º do Artigo 1° da Lei da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas, ficando com a seguinte redação: “§ 2º . A Política Nacional da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas objetivará a instrumentalização da implantação e o desenvolvimento da indústria editorial e o fomento à criação literária como bases de afirmação da nacionalidade e da cultura brasileira, com papel estratégico relevante na difusão e permanência da língua, das artes e da ciência e dos valores pátrios (sugerimos tirar esse “apêndice”, porque não é função da arte enaltecer valores pátrios, ora, convenhamos).” 4) Criação de um Programa de Compra Direta de Livros do próprio autor, tendo em vista o fato de grande parte da produção literária brasileira – sobretudo a poesia – ser publicada, ainda hoje, às expensas dos próprios autores. A proposta tem inspiração no Programa de Compra Direta de Alimentos da Agricultura Familiar, fruto de uma parceria dos ministérios do Desenvolvimento Agrário, de Segurança Alimentar e Combate à Fome e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, com o objetivo de garantir renda aos agricultores familiares e assentados da reforma agrária, além de abastecer os estoques reguladores do governo; 5) Criação da Subcâmara Setorial de Fomento à Criação Literária, na Câmara Setorial da Literatura, do Livro, Leitura e Bibliotecas. Esta Subcâmara seria formada preferencialmente por escritores e poetas e representantes do Ministério da Cultura. Como parte do esforço para contribuirmos com a formulação de programas públicos que incluam o fomento à criação literária e o contato direto do escritor com o público, trazemos também as seguintes propostas, que podem, objetivamente, ser implementadas em curto e médio prazo: PROPOSTAS PARA UMA POLÍTICA PÚBLICA DE FOMENTO À CRIAÇÃO LITERÁRIA 1) PROGRAMA DE CIRCULAÇÃO DE ESCRITORES E POETAS I – em articulação do Ministério da Cultura com o Ministério da Educação, criar um Programa de Circulação de Escritores e Poetas pelas universidades do País. Caravanas de cinco escritores e poetas deverão circular pelas universidades das cinco regiões do Brasil (Norte, Nordeste, Centro, Sudeste, Sul), para debates sobre literatura, leituras públicas e lançamentos de livros e revistas. Cada caravana deverá passar por, no mínimo, cinco cidades diferentes. Serão, portanto, cinco caravanas simultâneas, com cinco escritores cada. Total: 25 escritores. Essas caravanas deverão ser trimestrais. Sugestão de nome: Projeto Waly Salomão. 2) PROGRAMA DE CIRCULAÇÃO DE ESCRITORES E POETAS II – Mesmo princípio do Programa anterior, mas, agora, em articulação do Ministério da Cultura com os governos estaduais e municipais brasileiros (através de suas respectivas Secretarias de Cultura). Desta forma, se poderia ampliar o projeto para a rede de escolas estaduais e municipais. Sugestão de nome: Projeto Paulo Leminski. 3) PROGRAMA LATINOAMÉRICA DE LITERATURA - em articulação do MinC com os Ministérios da Cultura estrangeiros, embaixadas e universidades criar o Programa Latinoamérica de Literatura para circulação mútua de escritores e poetas entre os países latinoamericanos, promovendo debates, leituras públicas e lançamentos de livros e revistas. Se poderia ampliar para um Programa de Intercâmbio de Escritores e Poetas Visitantes nas Universidades desses países. 4) PROGRAMA ENTRE-MARES DE LITERATURA – a mesma idéia do programa anterior, porém entre o Brasil, Portugal, e os países africanos e asiáticos de língua portuguesa. 5) PROGRAMA PRIMEIRO LIVRO - um incentivo do MinC (e eventuais e bem-vindos parceiros) para a publicação, divulgação e distribuição a escolas e bibliotecas do primeiro livro de escritores e poetas brasileiros. 6) FUNDO NACIONAL DA LITERATURA, LIVRO, LEITURA E BIBLIOTECAS com 30% do orçamento destinado diretamente ao fomento de projetos independentes (publicação de revistas, CDs e DVDs de poesia e/ou prosa, recitais de poesia, festivais literários, co-edições, ciclos de discussões, pesquisas, etc...). 7) BOLSA CRIAÇÃO LITERÁRIA para desenvolvimento de projetos literários de escritores e poetas. A cada ano seriam concedidas 20 bolsas em todo o país, no valor de R$ 3 mil mensais para cada contemplado pelo prazo de um ano. Os autores escolhidos não poderiam ter vínculo empregatício, dedicando-se integralmente ao projeto. Os recursos poderiam ser conseguidos em parceria com as empresas estatais e a iniciativa privada. 8) SISTEMA PÚBLICO DE DISTRIBUIÇÃO - Criação de um sistema público de distribuição de livros (em parceria com os correios) voltado para as pequenas editoras e a produção independente. 9) PUBLICAÇÕES LITERÁRIAS - Criação de veículos públicos de circulação para a literatura, tais como jornais e revistas (através da imprensa oficial), sites e programas de rádio e TV na rede pública de comunicação. 10) JORNADA NACIONAL LITERÁRIA – Criação de um grande evento anual, reunindo escritores, poetas e ensaístas para leituras, debates, conferências, palestras e lançamentos. O evento será aberto preferencialmente a professores, estudantes e também ao público em geral. Desta forma, os professores poderão se atualizar sobre a criação e a discussão literária do Brasil, servindo de agentes multiplicadores junto aos seus alunos. A cada ano a jornada será realizada em uma cidade diferente do País, privilegiando todas as regiões. Para definir os critérios e a seleção de projetos e de autores para cada uma das propostas anteriores, reivindicamos a formação de uma comissão paritária com membros do Ministério da Cultura, dos escritores e da sociedade civil ligados ao setor literário e com comprovado conhecimento. Reivindicamos ainda que todos os programas sejam anunciados em editais públicos, de forma transparente e democrática, especialmente os que se referem ao Fundo Nacional da Literatura e à Bolsa Criação Literária. Por fim, motivados pelo Programa Fome Zero, da Presidência da República, que compreende a necessidade de incentivo à agricultura familiar e ao pequeno produtor para a erradicação definitiva da fome no país, nos sentimos animados a participar ativamente de um programa que erradique a fome de livros e também a fome de incentivo à criação literária no Brasil. Cientes da importância da criação literária na formação cultural do País, temos certeza de que nossas reivindicações e propostas encontrarão eco entre todos os interessados no problema da leitura — da equipe ministerial aos editores, livreiros, bibliotecários e da sociedade em geral.
Postada em:
26/11/2004 11:19
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Comentários:
Respeito para com o escritor - 17/7/2007 13:44:13
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ACESSIBILIDADE
Foi ao ar na quarta-feira, dia 17 o portal Domínio Público, um projeto do Ministério da Educação que oferece cerca de mil obras literárias, artísticas e científicas para consulta gratuita. Já no primeiro dia de funcionamento oficial, o portal teve de ser retirado do ar, por não ter capacidade de atender ao grande número de usuários. Segundo o MEC, houve 30 mil acessos ao portal na internet entre 9h e 10h, tornando a busca aos títulos muito lenta. Isso levou os técnicos a tirar a página do ar para instalar um outro equipamento servidor com o objetivo de tentar torná-la mais ágil.
Num país em que se lê pouco a grande demanda ao serviço é uma boa notícia!
Postada em:
19/11/2004 16:00
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DOE LIVROS NO RIO DE JANEIRO
| Foto: Divulgação |
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Os jornais O Globo e Extra estão realizando pela terceira vez uma grande doação de livros às escolas carentes e bibliotecas públicas do Rio de Janeiro. Você também pode participar, contribuindo com livros novos ou aqueles que já estão esquecidos no fundo do armário. Podem ser livros infantis, didáticos, romances, enciclopédias, não importa. O importante é que você faça parte desta história, que está ajudando a levar cultura e cidadania a milhares de pessoas.
Faça sua doação até o dia 26 de novembro, de segunda a sexta, das 8h30 às 17h, nas Agências de Classificados do Globo e do Extra, nos seguintes endereços:
- Av. Rio Branco, 185 lj. C - Centro - R. Voluntários da Pátria, 445 lj. A - Botafogo - Av. Princesa Isabel, 245 lj. E - Copacabana - R. Dias da Rocha, 9 lj. B - Copacabana - R. Visconde de Pirajá, 550 lj. M - Ipanema - Av. Olegário Maciel, 175 lj. D - Barra - R. Conde de Bonfim, 406 lj. C - Tijuca - R. Dias da Cruz, 203 lj. 18 - Méier - Av. Ministro Edgard Romero, 224 lj. B - Madureira - R. Baturité, 14 lj. C - Bonsucesso
Postada em:
19/11/2004 08:11
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MERCADO EDITORIAL NO BRASIL
O mercado editorial brasileiro é um Mercedes circulando com rodinhas de rolimã. A metáfora é usada pelos professores Fábio Sá Earp, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e George Kornis, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Juntos, eles acabam de finalizar a pesquisa mais completa e detalhada sobre o universo do livro já feita no Brasil. O estudo demorou um ano e meio para ficar pronto, e foi bancado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. A idéia é usá-lo para definir novas políticas de investimento no setor. Os resultados serão divulgados oficialmente na quinta-feira 16, no Rio de Janeiro, durante a abertura da Primavera dos Livros, feira na qual títulos de pequenas e médias editoras são vendidos com descontos. ÉPOCA antecipa os números e as conclusões - nada animadoras - dos pesquisadores. Segundo Earp e Kornis, o panorama é nebuloso. Reunindo as estatísticas aferidas anualmente pela Câmara Brasileira do Livro e pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros, comparando-as às de dezenas de outros países, entrevistando editores, livreiros, donos de gráficas e bibliotecários, os professores chegaram ao consenso de que nosso mercado editorial é completamente incompatível com o tamanho e a importância do país. ''As editoras ainda são negócios familiares, por vezes muito amadores, praticamente empresas de fundo de quintal quando comparadas a organizações profissionais do exterior'', afirma George Kornis, professor de Políticas Sociais da Uerj. Seu colega completa o cenário de desalento. Segundo Earp, coordenador do Grupo de Pesquisa em Economia do Entretenimento da UFRJ, o Brasil tem uma das piores políticas de bibliotecas públicas do mundo. ''As compras do governo são muito tímidas, precisam ser triplicadas. Todo o processo editorial brasileiro é atrasado. E a leitura, infelizmente, ainda é considerada frescura por aqui.'' O trabalho pretende acabar com essa visão do produto: livro, afirmam os estudiosos, é gênero de primeira necessidade. ''O desempenho do mercado editorial deve ser tratado como um problema para o país, precisa virar uma dor de cabeça'', afirma Kornis. De fato, problemas aparecem ao longo de toda a pesquisa. Há dados assustadores. Um deles mostra, por exemplo, que entre 1995 e 2003 o faturamento das editoras nacionais diminuiu 48%, e a quantidade de exemplares vendidos caiu pela metade. É verdade que, no mesmo período, a economia como um todo teve desempenho medíocre. Mas no mercado do livro os resultados ficaram muito aquém do resto. ''Uma queda desta proporção seria fatal em qualquer outro setor'', acredita Earp. É preocupante, também, a quantidade obscena de livros encalhados, cujo destino muitas vezes é ser picotado para reciclagem de papel. Só em 2003, 44 milhões de unidades não foram vendidas - 15% da produção total. Os exemplares poderiam ser comprados a preços mais baixos para bibliotecas. Só que isso não acontece. ''As editoras parecem preferir os livros no porão a ter de baixar o preço'', lamenta Kornis.
A falta de organização do setor também não condiz com a importância do produto. As grandes casas de publicação nacionais não têm o hábito de fazer pesquisas de mercado. Trabalham com a garantia de que quatro ou cinco títulos vão vender como best-sellers a cada ano - e assim compensar o comportamento quase sempre insatisfatório de centenas de outros lançamentos. ''É inacreditável'', continua Kornis, ''que um empresário se proponha a trabalhar com uma margem de erro tão cavalar.'' Comportamento semelhante em outras atividades certamente levaria qualquer negócio à bancarrota. Há, é claro, a velha e procedente reclamação de que o livro, no Brasil, é muito caro. Na verdade, quando ä comparado ao preço de outros países, o valor médio do exemplar brasileiro é até pequeno (US$ 2,50 contra US$ 14 nos Estados Unidos e US$ 10 na Austrália). Mas, por aqui, a renda é muito inferior: na hora de escolher o que sai do orçamento doméstico, o livro está no topo da lista de itens dispensáveis. Earp explica que as tiragens são muito pequenas, e isso encarece o produto. Mas há inúmeras maneiras de baratear o processo. ''É inconcebível que, num país do tamanho do Brasil, uma remessa de livros saia de São Paulo e tenha de ir de caminhão até o Acre'', afirma. ''Com a tecnologia de hoje, é possível abrir gráficas em outros Estados, enviar as provas dos livros por computador e imprimir os exemplares no local. É uma forma de gerar emprego e baixar o preço final.''
O levantamento revelou ainda algumas curiosidades. Da pesquisa surgiu, por exemplo, o gigantesco mercado de venda no sistema de porta em porta - cuja oferta é centrada basicamente na Bíblia e em títulos religiosos. Enquanto todas as editoras do país reúnem 22 mil funcionários, os vendedores que circulam pelas ruas somam mais de 30 mil pessoas. ''É um exército silencioso, que a gente quase nunca vê'', explica Earp. Culpar os índices de analfabetismo (no país, 15 milhões de pessoas com mais de 15 anos de idade não sabem ler) pelo cambaleante equilíbrio do setor é desculpa esfarrapada. ''Milhões de brasileiros alfabetizados não lêem porque não são estimulados, ou porque vivem em cidades onde não há bibliotecas'', diz Earp. Segundo levantamento recente da Unesco, cerca de mil municípios brasileiros não têm sequer uma coleção pública - o equivalente a 19% das cidades do país. Está aí o grande abacaxi a ser descascado pelo atual governo. Mas há um alento: é possível fazê-lo. É preciso dinheiro. O Ministério da Cultura já separou R$ 25 milhões de seu orçamento para o Plano Nacional do Livro e Leitura, apelidado de Fome de Livro, e promete zerar o número de municípios sem bibliotecas. O programa prevê ainda uma redução nos tributos do setor editorial e parcerias para compra de exemplares para bibliotecas (duas formas de aumentar as tiragens). Mas os autores da pesquisa sugerem que se faça mais. A criação de um vale-livro, uma espécie de subsídio para estudantes e professores universitários semelhante ao vale-transporte, é uma idéia. Outro incentivo viria de uma linha de crédito de R$ 50 milhões para editoras e - mais importante - da criação de uma ''agência regulamentadora'' para o setor. Sabendo que a simples menção desse termo causa arrepios, Kornis se apressa em esclarecer: ''Não estamos pregando o dirigismo''. A proposta, diz, é encontrar um equilíbrio entre ''a barbárie do mercado e o estatismo furioso'', usando a agência para mediar discussões entre os envolvidos no processo. Sonha-se com o dia em que tudo se resolva a contento, os números possam ser deixados de lado e a maré esteja boa o suficiente para fazer o que realmente interessa: ler.
Fonte: Revista Época
Postada em:
10/11/2004 20:34
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SÃO PAULO, UM ESTADO DE LEITORES
| Foto: LeiaLivros |
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O projeto "Leia Livros" é uma iniciativa bastante interessante da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo", para reunir informações relacionadas ao livro e leitura.
Ali é possível opinar sobre livros, publicar textos, e navegar por links úteis na seção Biblioteca Virtual. Postada em:
08/11/2004 20:58
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DO AMOR
| Foto: Divulgação |
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A escritora, jovem |
Você já leu o mesmo livro em diferentes tempos? Particularmente gosto de fazer isto e ontem comecei a reler a coletânea "Do amor" da escritora Hilda Hilst (1930-2004). Muito interessante perceber que o momento faz com que, muitas vezes, olhemos um ângulo antes não visto. Foi o primeiro livro dela que conheci e além deste li "Contos D´Escarnio". A história de vida desta mulher é igualmente interessante!
"Aflição de ser eu e não ser outra. Aflição de não ser, amor, aquela Que muitas filhas te deu, casou donzela E à noite se prepara e se adivinha Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha Que te retém e não te desespera. (A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra E ter a face conturbada e móvel. E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera. Aflição de te amar, se te comove. E sendo água, amor, querer ser terra."
Postada em:
07/11/2004 12:47
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VILÃO DE LIVROS INFANTIS
| Foto: P.Pullman |
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O escritor inglês Philip Pullman |
Para Philip Pullman, autor de livros fantásticos para o público juvenil, o presidente norte-americano George W. Bush seria perfeito como o vilão de suas sagas épicas sobre a luta entre o bem e o mal. "Ele se encaixaria perfeitamente", disse o autor britânico da trilogia "Fronteiras do Universo", que parece estar prestes a seguir os passos cinematográficos de Harry Potter e de Frodo, de "O Senhor dos Anéis". "Bush possui essa certeza obstinada e impôs um fanatismo fervoroso", disse Pullman, cujos livros têm sido condenados por setores religiosos por tecer críticas à religião. "A direita cristã nos Estados Unidos é a imagem espelhada dos fundamentalistas islâmicos", acrescentou o escritor.
Pullman tem boas notícias para os sete milhões de leitores de sua trilogia fantástica: no Ano Novo ele começa a escrever o quarto livro sobre sua ousada heroína, Lyra.
"Trata-se de uma espécie de sequência que leva Lyra quatro anos à frente e a uma parte diferente de seu mundo", disse o autor, que mal consegue se conter de impaciência para começar a escrever "The Book of Dust". Enquanto ele estiver escrevendo, o primeiro filme da trilogia -- "A Bússola Dourada" -- estará sendo produzido a partir de um roteiro do dramaturgo britânico Tom Stoppard. O autor, cuja trilogia já foi adaptada com sucesso pelo National Theatre britânico, está confiante quanto ao destino do livro no cinema. Ele acredita que o filme não será dominado por efeitos especiais. A tentação para que isso aconteça existe, já que os livros incluem ursos de armadura, fantasmas que sugam almas, clãs de feiticeiras árticas e uma faca sutil que corta magicamente de um mundo a outro, numa vasta aventura que lembra o escritor John Milton e trata de traição e destino. "É uma história boa, e vai sobreviver a não ser que façam algo absurdo com ela, coisa que não farão", disse Pullman à Reuters em entrevista. "Se se ativerem à história, ela não vai exigir efeitos especiais. O problema com 'Guerra nas Estrelas' foi que os efeitos especiais viraram o mais importante". Desde 1998, as vendas mundiais de livros infanto-juvenis aumentaram quase 25 por cento, lideradas por J.K. Rowling com os livros sobre Harry Potter. A trilogia de Pullman navega na crista dessa onda, e o escritor é o primeiro a reconhecer a importância de Rowling: "Com Harry Potter, de repente os livros infanto-juvenis começaram a render milhões de libras. Eles são quentes num sentido financeiro. Isso é muito bom, mas distorce as coisas. Nove em cada dez livros não dão certo".
Livros que agradam tanto a crianças quanto aos adultos viraram o maior fenômeno recente da literatura mundial. Ao promover seu livro infantil mais recente, "The Scarecrow and His Servant", numa livraria de Londres, Pullman atribuiu a tendência ao fato de os romancistas contemporâneos deixarem a trama de lado. "As pessoas gostam de histórias. Esse apego à história é algo que vem sendo desprezado, como se fosse vergonhoso", reclamou. "As crianças querem de qualquer maneira saber o que vai acontecer no próximo capítulo. Isso é uma disciplina muito boa para mim. Eu gosto da pressão de ter que contar uma história".
Fonte: Reuters - 05/11/04 12:04 (© Reuters 2004)
Postada em:
06/11/2004 12:47
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O FUTURO DOS LIVROS
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Senhor Arqueólogo do Futuro: na falta de bola de cristal ou de qualquer outro intrumento capaz de sondar o porvir, dirijo-me a V.S. para formular-lhe uma pergunta que me inquieta duplamente. A questão é: tem futuro o livro? Espero que V.S. saiba que estou me referindo àquele objeto definido no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (e que é, a propósito, um livro) como “coleção de folhas de papel, impressas ou não, cortadas, dobradas e reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por meio de cola, costura, etc., formando um volume que se recobre com capa resistente.” Sim, isto, neste ano de 2004, é livro. Caso o senhor sequer saiba do que estamos falando, a consulta que lhe dirigi torna-se inteiramente desnecessária e só me resta mergulhar no fundo poço da depressão, fundo este recoberto, naturalmente, de livros. A razão de minha pergunta é simples. Talvez o senhor não saiba, mas este objeto tal como definido no dicionário, é relativamente recente na história da humanidade. Até o século quinze a disseminação da informação escrita fazia-se manualmente através de tabuletas de barro, de pergaminhos, de papiros. A invenção dos tipos móveis permitiu mecanizar este processo, barateá-lo e transformar o texto em algo acessível a milhões de pessoas. Esta democratização da cultura coincidiu com aquilo que chamamos de modernidade e que fez ruir o mundo feudal. Há cinco séculos o livro é algo importante em nossas vidas. O livro transmite-nos idéias. O livro emociona-nos através da ficção, da poesia. O livro diverte-nos. Isto quando impresso, naturalmente; porque Houaiss sugere a possibilidade de livros em branco, o que é, no mínimo, perturbador. Quem abre um livro está à procura de revelações, não de enigmas – como o seria a página em branco. A tecnologia continuou avançando. Surgiu a tela. E a tela, grande ou pequena, passou a competir com a página escrita. A página é estática, a tela é dinâmica. A página pode ter imagens, sob forma de fotos ou ilustrações, mas a tela tem imagens móveis. Recentemente a tela, que já servia ao cinema e à tevê, passou a integrar também o computador, um equipamento que lida igualmente com imagens e com palavras, e que às vezes pode ser pequeno – do tamanho de um livro, para dizer a verdade. E a pergunta então se impôs: será que o computador vai substituir o livro? Há no momento uma grande discussão a respeito. Fala-se de computadores muito portáteis em cuja tela podem aparecer – e desaparecer – livros inteiros. É claro que será mais difícil levar esse equipamento para a cama, ou para o banheiro, que ainda é um lugar de leitura para muitas pessoas; mas a possibilidade de eliminar o papel, que não é barato, e que é feito de árvores (resultando, portanto, em dano à natureza) resulta muito atrativa. Enfim: o que acontecerá ao livro, só o futuro – ou o arqueólogo do futuro – dirá. E é exatamente por isso que interrogo a V.S. Movido, como disse no início, por uma dupla inquietação. É que sou escritor; tornei-me escritor porque amava os livros, porque queria ser como aquelas pessoas que escreviam os textos que tanto me encantavam. E sou um leitor. Na sala de onde lhe escrevo, estou rodeado de livros, livros que ali estão, imóveis, quietos, à minha disposição, à espera de que eu os consulte, ou folheie. Mas escrevo-lhe de um computador. Portanto, tenho os livros a meu redor, mas a tela, que reluz com branca e espectral claridade, à minha frente. Entre os livros e a tela meu coração balança. Diga-me, senhor Arqueólogo do Futuro: terei mesmo de livrar-me de meus livros? E o que farei com as lembranças que eles em mim despertam, o que farei dessa amável convivência que já chega a décadas? Responda-me se souber, ou se quiser. E se não responder, entenderei perfeitamente. Neste meio tempo continuarei lendo. E ah, sim, escrevendo livros.
Carta de Moacyr Scliar, endereçada ao Arqueólogo do Futuro.
Postada em:
03/11/2004 21:18
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