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O PODER DA PROPAGANDA
"...esta semana descobri enfim um prédio inteligente, digamos, letrado. Um prédio com biblioteca. Acho que é o primeiro. No anúncio, a novidade não se destacava como principal atração, evidentemente, mas era uma delas numa lista très chic: "Spa, by Les Bains de L'Occitane", "Fitness, by Reebock", "Adega, by Danio Braga", "Espaço Gourmet, by Flávia Quaresma", "Fumoir, by Esch Café", "Home cinema, by Armazém Digital", "Ateliê, by Angela Cantarino". No final, a inovadora surpresa: "Biblioteca, by Argumento."
Só não digo o nome do lançamento para não parecer que, em troca desse comercial gratuito, vou tentar arranjar um lugarzinho na biblioteca para colocar algum livro by ZV. Na verdade, encontrei outra propaganda de livro, essa subliminar. Uma foto grande de uma bela loura deitada com um exemplar aberto sobre o peito, e o texto: "Venha morar junto a um parque de 40 mil m² com trilhas, praças e jardins de Burle Marx. Além de ganhar a natureza como sua vizinha, você ainda ganha uma geladeira, um fogão e um microondas." Acho que se pechinchar um pouco, o cliente ganha a loura também. E, de quebra, o livro. Tomara que a moda pegue. Quem sabe a publicidade, com seu irresistível poder de convencimento, não consegue fazer com o livro o que fez com o cigarro e a bebida: transformá-lo num bem de consumo de prestígio e num hábito prazeroso, incorporando-o como símbolo a um estilo de vida invejável. Que as bibliotecas se disseminem não apenas pelas regiões mais necessitadas, mas também pelos prédios chiques. Se há um mal que debilita nosso organismo cultural e atravessa todas as classes sociais, é a carência de leitura".
Fonte: Zuenir Ventura, Enfim, um prédio que lê, O Globo, 26/11/2006
Postada em:
28/11/2006 17:29
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